Neurobullshit

Depois que me formei em Coaching comecei a notar, com mais frequência, piadas e críticas aos colegas da área. Não posso dizer que isso não me incomoda, mas também não posso dizer que não entendo os motivos de tais chacotas.

Há algum tempo tenho comprado uma briga que sei que não tenho muita chance de vencer, mas que está alinhada com minha missão de vida: a luta contra palestrantes motivacionais.

Em um outro momento eu explico o porquê dessa luta e tenho certeza que você entenderá e concordará comigo, mas por ora que abordar apenas um dos pontos que me levam a essa cruzada: A QUANTIDADE DE BALELAS QUE ESSAS PESSOAS PROPAGAM!

Chego a me arrepiar quando ouço algum palestrante, coach ou similar, falar sobre física quântica, por exemplo.

Entenda uma coisa, nobre leitor: sequer os físicos entendem corretamente a física quântica, não será o Carlos, formado em história e com um cursinho de coaching de fim de semana que a entenderá!

Além disso, o que os físicos entendem de física quântica, posso te garantir, NÃO TEM NADA A VER COM O QUE ESSES GOLPISTAS DIZEM.

Essa introdução toda para dizer que acabei de ler alguns artigos em sites gringos sobre mais um desses temas que são vendidos como tábua de salvação para todos os males que te afligem e que TENHO que trazer aqui para vocês em uma interpretação minha mais do que uma tradução literal (quem quiser ler o post em questão em inglês, é só clicar aqui, aqui e aqui).

ESTOU FALANDO DE NEUROVENDAS!!!
Mas para falar de “neurovendas” (seja lá o que isso signifique!) vamos começar entendendo a raiz de todos os males, a “neurociência“.

Entenda que não estou criticando a área da neurociência, tampouco os neurocientistas. Estou criticando pessoas que são formadas, por exemplo, em marketing, administração, psicologia e se apresentam como especialistas em um tema que é tão complexo que nem mesmo os entendidos da área o entendem completamente.

Certa vez li em um livro que o homem conhece mais sobre o espaço, as galáxias, planetas etc., do que sobre o funcionamento do próprio cérebro. Não sei se isso é verdade, mas tendo a acreditar que sim.

É claro que já entendemos bastante sobre essa máquina que vive em nossa cabeça, mas ainda existe um longo caminho a ser percorrido.

Assim como Bryan Troy aponta, toda vez que você vir a palavra “neuro” anexada a qualquer outra palavra, suspeite que se trata do que os anglo-saxões chamam de bullshit, palavra que no idioma de Camões seria algo como “besteira”, mas em inglês tem um significado mais profundo, algo como a soma de besteira + estupidez + mentira + sem sentido. Consegue imaginar o resultado disso? Então. Neurobullshit!

Além de ser bullshit, esses assuntos abordados como neuro-sei-lá-o-que geralmente são pseudociência. Nada muito mais sério do que astrologia, medicina alternativa, quiropraxia ou homeopatia, por exemplo. E ponto final.

Novamente, que fique claro que não estou dizendo que a neurociência é bullshit e sim que ela tem sido uma ferramenta excelente para os bullshiters!

Você pode estar se perguntando: Mas Rodrigo, qual o problema disso e por que você está escrevendo contra isso?!

Bem, vamos por partes, padawan.

Primeiro é importantíssimo que você entenda que esses oportunistas utilizam essas terminologias pseudocientíficas para um único fim: Ganhar dinheiro fácil de incautos como você! Mesmo quando entregam o “conhecimento” gratuitamente, saiba que há sempre um objetivo oculto que, embora você não esteja vendo, para ele é muito claro e tem a forma de uma garoupa.

Portando, toda vez que você ler algo sobre neurofilosofia, neuroliderança, neurodireito, neuroeconomia, neuromarketing, neurofinanças, neuroestética, neurohistória, neuroliteratura, neuromusicologia, neuropolítica, neuroteologia, NEUROVENDAS!!! (motivador desse artigo), ligue seu detector de bullshiters na capacidade máxima e, o mais rápido possível, proteja sua carteira! Não cai no que os próprios neurocientistas apelidaram de blobologia (termo cunhado por Ned Sahin), algo como quantidade-mínima-logia, ou seja, quem pega apenas o mínimo do mínimo do mínimo sobre algo e criar todo um mercado baseado nisso.

Vale a leitura do excelente Brainwashed: The Seductive Appeal of Mindless Neuroscience, de Sally Satel e Scott O. Lilienfeld.

MAS ENTÃO, POR QUE ESSAS BALELAS FAZEM TANTO SUCESSO?
O texto de Matt Wall explica isso com uma história que adoro contar para os participantes de meus treinamentos:

Durante a Segunda Guerra Mundial, moradores de ilhas no Pacífico Sul presenciaram atividades aéreas de aviões americanos de carga. Era a primeira vez que esses nativos presenciavam a tecnologia do século XX.

Após o final da guerra, quando os aviões americanos sumiram e não voltaram mais, alguns nativos dessas ilhas começaram a fabricar imitações daqueles estranhos pássaros, bem como de torres de controle, antenas de rádios de comunicação e tochas no lugar de luzes de aterrissagem, tudo fabricado com madeira e bambu. Aparentemente eles acreditavam que isso poderia atrair os aviões americanos, com sua maravilhosa carga, novamente.

Esse comportamento foi detectado por arqueólogos em vários momentos diferentes da história, principalmente em populações insulares. Por isso, o físico Richard Feynman, em um discurso em 1974, usou esse conceito para cunhar a expressão “cargo-cult science“, algo como “ciência do culto à carga“.

A ciência do culto à carga tem a aparência de coisas reais, mas não é funcional, ou seja, é tudo aquilo que parece ciência, mas não é. Não tem os elementos chave da ciência. Assim como o neurobullshit, que tem cara de ciência, tem cheiro de ciência, tem gosto de ciência, mas não é ciência (pelo menos não na mão de não-cientistas).

E POR QUE ESCREVER SOBRE ISSO?
Não sou do tipo que se cala (e já paguei muito caro por isso!). Mas sou assim. Prefiro me prejudicar para te alertar do que ficar calado e vê-lo caindo no conto do vigário.

Além disso isso tem tudo a ver com minha missão de vida que passa por transformar vidas através do CONHECIMENTO!! E não da balela.

Há algum tempo, conversando com um amigo sobre coisas desse tipo, ele surgiu com uma teoria que gostei muito e tenho divulgado sempre que posso. Me acompanhe:

Vivemos em um mundo em que há uma cobrança muito grande por desenvolvimento constante.

Cada vez mais a cultura do “Querer é poder” (outra balela), faz com que, por consequência, quem não consegue atingir seus objetivos é simplesmente porque não quis tanto quanto deveria. (esse item eu adicionei à teoria dele)

Aprender dói. Demanda esforço, dedicação. E muitos não querem se esforçar. Querem aprender, mas sem ter que esforçar-se para isso.

Some os 3 itens acima e temos o seguinte cenário: um contingente gigante de pessoas pressionadas por aprender, mas sem querer esforçar-se, para não serem perdedores.

Nesse vácuo surge uma onda de picaretas que dizem ter a solução, quase sempre pseudocientífica, para que você aprenda, sem ter que sofrer, por valores que cabem no seu bolso! (alerta de ironia!)

CONCLUINDO
Quer vender mais meu caro?

Adquira conhecimento de vendas, aplique esses conhecimentos e persista.

Não acredite que alguém lhe dará soluções mágicas. Geralmente essas pessoas só sabem vender exatamente esses cursos de como vender. Nada além disso.

Acreditar nesses bullshits seria como acreditar que existe uma pílula homeopática que você toma e, automaticamente, começa a atingir suas metas!

MENTIRA DESLAVADA PARA LEVAR SEU SUADO DINHEIRINHO EMBORA.

Resista!

Abraços e boas vendas.

Rodrigo Ferreira

Intelecção | Significância | Estudioso | Input | Relacionamento. Coach de Pontos Fortes, professional coaching, Strategic Mentoring, professor de MBA, Pós-graduado em Psicologia, Liderança e Coaching. 26 anos de experiência em Vendas. Tem ajudado vendedores, gestores e microempresários.

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